O  PENSAMENTO  DE  DESCARTES

  Descartes (1596-1650), nasceu em La Haye, na FranÁa. Desde cedo, meditando sobre o que havia aprendido na escola, considerou grande parte dos conhecimentos que adquirira como dogmáticos, incertos e vazios. Mais tarde, ele desenvolveu o mÈtodo filosófico, que, a partir do modelo matemático, seria uma forma de se chegar a um saber filosófico sobre tudo que significava progresso da humanidade. Assim, viajou muito para conhecer o mundo e refletir sobre ele, procurando a verdade em si mesmo, na sua razão, sem se ligar às tradiÁões dogmáticas livrescas. O que procurou foi um mÈtodo universal que unificasse o saber. Quando morreu, várias universidades da Holanda, onde ele viveu por vinte e um anos, já tinham adotado suas idÈias.

A primeira metade do sÈculo XVII, quando viveu Descartes,  foi conflituoso em toda a Europa, principalmente com os embates políticos e religiosos na Alemanha, entre o Imperador protestante, Fernando de Habsburgo, que queria consolidar um poder absoluto e os príncipes protestantes (Guerra dos Trinta Anos, 1618-1648); tambÈm em outros países havia conflitos: na FranÁa, Henrique IV e Luís XIII enfrentaram revoltas por meio sÈculo e, por seus esforÁos, em 1661, quando Luís XIV, o Rei Sol, subiu ao trono, o absolutismo estava consolidado.

Descartes pertencia à burguesia ascendente e, por isso, tinha, mesmo em Època tão conturbada, o suficiente para viver independente, usufruindo de total individualidade; esse foi o elemento material que subsídiou sua autonomia de espírito responsável por sua  posiÁão filosófica. Foi discreto e tranquilo em sua vida particular; assim, da história da sua vida, o que se narra  È a evoluÁão do seu espírito.

Algumas das muitas descobertas científicas do sÈculo XVII alteraram a concepÁão do universo. Giordano Bruno formulou a hipótese de um universo infinito e sem centro; Galileu colocou o sol no centro do sistema solar e, observando as manchas solares e as montanhas da lua, disse que o universo era imperfeito. TambÈm na matemática e na fisiologia houve grande progresso.

As descobertas na área da física levaram à contestaÁão do sistema aristotÈlico-tomista e consequente separaÁão entre o saber filosófico e o saber científico. Foi Descartes quem  reuniu ciÍncia e filosofia, física e metafísica.

Inspirando-se em Galileu, afirmou que a natureza está escrita em linguagem matemática, isto È, a matemática È um poderoso instrumento para a sua compreensão. Assim, a extensão do modelo de conhecimento matemático a todas as ciÍncias será a principal característica do mÈtodo de Descartes.

Ele iniciou sua reflexão pela crítica ao ensino tradicional, afirmando que não estimulava o uso da razão e do bom senso. No Discurso sobre o MÈtodo, disse que o bom senso (que definiu como capacidade de distinguir o verdadeiro do falso), mesmo sendo em grau suficiente em todos os homens, não leva a conhecer a verdade; È preciso que a razão seja orientada por regras que facultem chegar à evidÍncia; para tanto, exagerou o valor do mÈtodo, dizendo que bastaria aplicá-lo corretamente para se chegar à verdade das coisas, sem necessidade de grande cultura, memória ou raciocínio especiais.

Insistiu na necessidade de se criar um novo mÈtodo, porque a metodologia deve vir antes do conhecimento do objeto, para reforÁar a razão - o espírito deve se valer primeiro de si próprio e o mÈtodo È a primeira condiÁão para que se possa conhecer a verdade.

Negou valor à tradiÁão cultural que, a seu ver, levou a muitas dúvidas,  pouco saber e opiniões divergentes na Filosofia, quando a verdade È só uma. Só o mÈtodo poderá dar unidade à ciÍncia que È una, embora tenha vários objetos de investigaÁão - trata-se da unidade do saber a partir da unidade do intelecto - È a unidade do mÈtodo que vai levar à unidade da ciÍncia. Como o homem orienta sua vida por opiniões cuja validade não foi questionada, È preciso que haja um mÈtodo que, após a colocaÁão sistemática da dúvida em tudo o que se conhece e sabe, possa levar a verdades incontestáveis.

Tomou da matemática o que ela tem de fundamental: a ordem e a medida, que existem tambÈm fora do seu âmbito, em qualquer pensamento, para aplicá-los no conhecimento de todos os objetos.

No Discurso (1), ele apresenta seus preceitos sobre o mÈtodo; o primeiro preceito È: (...) não aceitar jamais alguma coisa como verdadeira se não a conhecer evidentemente como tal (...) e não incluir nos meus juízos nada alÈm daquilo que se apresentar tão clara e distintamente que não tenha nenhuma ocasião de pô-lo em dúvida. Citando Platão e Aristóteles, disse Descartes: “Por exemplo, não conheÁo nenhum deles que não tenha suposto o peso nos corpos terrestres; mas (...) nem por isso conhecemos qual seja a natureza daquilo que se chama peso (...) e temos que aprendÍ-lo de outra maneira. Pode-se dizer o mesmo do vazio e dos átomos, do quente e do frio, do seco e do úmido, do sal, do enxofre e do mercúrio, e de todas as coisas semelhantes que alguns supuseram como princípios. E acrescentou: “todas as conclusões que se deduzem de um princípio não-evidente não podem ser evidentes, ainda que deduzidas corretamente. Aí se pode observar a crítica de Descartes à física aristotÈlica - a deduÁão poderá estar correta, mas se as hipóteses são falsas ou pouco claras, os conhecimentos tambÈm serão falsos ou obscuros.

Adverte sobre os enganos provindos dos sentidos para preconizar o mÈtodo: Propondo-me tratar aqui da luz, a primeira coisa de que quero advertir-vos È que pode haver diferenÁa entre o sentimento que dela temos, isto È, a idÈia que se forma em nossa imaginaÁão por meio dos olhos, e aquilo que está nos objetos e produz em nós esse sentimento, ou seja, aquilo que existe na chama ou no sol”.

O mÈtodo È composto de quatro regras: 

1. Clareza e distinÁão - eliminando preconceitos e precipitaÁão, só se deve aceitar como verdade aquilo que aparecer ao espírito de forma tão clara e distinta, que não permita dúvidas.

2. Análise - se o conhecimento apresentar dificuldades, deve-se dividí-lo em quantas partes forem necessárias, para que se possa formar idÈias claras e distintas.

3. Ordem - os pensamentos devem ir dos objetos mais simples para os mais complexos e as idÈias devem ser postas em ordem, se estiverem desordenadas. Trata-se da deduÁão.

4. EnumeraÁão - È preciso refazer a ordem e as enumeraÁões para que haja certeza de que todos os elementos, antes separados, foram considerados. É, em parte, uma síntese, já que reconstroi o que a análise separou.

Será colocado em dúvida sistemática tudo que provenha do conhecimento sensível, porque ele gera incertezas (os sentidos enganam), bem como da matemática, porque È preciso haver certeza de que a representaÁão mental de algo, mesmo matemático, corresponde à verdade, isto È, certeza de que tem total garantia de objetividade. A reflexão só terá certeza ou evidÍncia absoluta, se partir da negaÁão absoluta de todas as certezas. É aí que se encontra o caráter metódico da dúvida - a geraÁão da certeza atravÈs da dúvida. Como pode gerar certeza, a dúvida È provisória. Quanto mais forte e radical for a dúvida, maior será a certeza gerada por ela; e È preciso que assim seja, porque se está tratando de fundamentar as verdades da ciÍncia.

Como astrônomos e geômetras supõem linhas imaginárias, Descartes supôs uma ficÁão: a do Deus Enganador ou do GÍnio Maligno (malin gÈnie) para justificar a dúvida atÈ na matemática, que, em princípio, dá à razão representaÁões claras e distintas. Como duvidar? A ficÁão È utilizada  para justificar uma dúvida que È provisória: ambos poderiam fazer com que o homem estivesse errando toda vez que tivesse a mais forte impressão de estar certo, como falsear a verdade das representaÁões matemáticas, ainda que elas pareÁam claras e distintas. Trata-se de um artificialismo, de uma hipótese (a de que paira sobre o universo científico a ameaÁa de que ele È apenas uma ficÁão, uma criaÁão subjetiva, um sonho bem engendrado) - discute-se o valor objetivo dos conhecimentos científicos, representaÁões mentais que embora possam parecer perfeitamente lógicas, poderão não corresponder à realidade externa.

Dado que Descartes quis reconstruir todo o edifício do saber, ele aconselhou fingir que tudo o se acreditava saber antes de iniciar a reflexão filosófica era falso, para contrabalanÁar o hábito de admitir tudo como verdadeiro. Nesse ponto, já tendo a dúvida adquirido caráter universal, o problema do conhecimento estava totalmente proposto.

Descartes foi muito comparado aos cÈticos do período helenista (III a.C. a II d. C.), porque cultivou a dúvida. Embora tenha retomado muitos dos argumentos dos cÈticos, deve-se notar que eles  tiveram mais uma atitude perante a vida, do que uma postura teórica - já que È impossível conhecer-se a verdade (Pirro), e de nada se pode dizer que È verdadeiro, dado que sempre se pode opor algo falso e difícil de ser distinguido do que parece certo, deve-se manter a indiferenÁa, suspendendo crenÁas e juízos para que se possa obter a felicidade. 

Montaigne (sÈc. XVI) tambÈm influenciou Descartes com sua crítica cÈtica baseada na instabilidade e variabilidade das opiniões.

No início de sua “primeira meditaÁão metafísica”, Descartes (3) disse que procurava um ponto fixo para levantar o mundo: “Arquimedes, para tirar o globo terrestre de seu lugar e transportá-lo para outra parte, não pedia mais, exceto um ponto que fosse fixo e seguro. Assim, terei o direito de conceber altas esperanÁas, se for bastante feliz para encontrar somente uma coisa que seja certa e indubitável”. A procura desse ponto fixo È a dúvida. Como o texto supra-citado demonstra, ele foi diferente dos cÈticos acadÍmicos, porque acreditou que È possível chegar à certeza de alguma coisa e que o intelecto humano pode chegar à verdade; dessa forma, não preconizou a indiferenÁa - o mÈtodo será seu caminho para chegar à verdade.

Agora já se pode compreender porque a obra de Descartes È um trabalho crítico - È uma revisão do saber tradicional; para tanto, não foi preciso rever todos os conhecimentos tradicionais, mas apenas recusar todos eles, para dar início à construÁão do saber. No entanto, embora não tenha se proposto a tanto, o autor substituiu os conceitos tradicionais aristotÈlico-tomistas por suas próprias idÈias, o que implica numa crítica implícita à filosofia aristotÈlico-tomista.

Para entender tal crítica será citado um trecho do livro “Descartes, a Metafísica da Modernidade”de Franklin Leopoldo e Silva (4), para uma breve revisão de alguns conceitos aristotÈlicos: “Em Aristóteles há dois pares de noÁões que desempenham funÁão estratÈgica:  forma/matÈria e ato/potÍncia. A matÈria È o indeterminado que se determina ao receber uma forma. A potÍncia È a possibilidade, em si meramente indeterminada, que se realiza concretamente pela determinaÁão de um ato. Uma substância È, pois, potÍncia atualizada, ou matÈria que ganha uma determinada forma, tornando-se, então, algo. ... Ora, esse ato contitutivo da substância, pelo qual ela existe, È a forma substancial ou a forma da substância. É essa forma que faz com que alguma coisa exista, primeiramente, como substância (essÍncia) à qual se acrescentarão os acidentes, que são as determinaÁões não-essenciais da substância. Essa noÁão desempenha papel de destaque no conhecimento dentro da filosofia aristotÈlico-tomista, pois È chegando ao conhecimento da forma enquanto ato constitutivo da substância que podemos conhecer a essÍncia e, de maneira geral, a estrutura essencial do universo... Ora, uma vez que cada substância tem uma forma ou uma essÍncia que a identifica, nada seria mais estranho a Aristóteles do que conceber a física como um conjunto de leis da natureza válidas para todos os fenômenos, independentemente da essÍncia de cada um”.(p.46)

A característica mais notável da natureza È o movimento ou a mudanÁa; para Aristóteles toda mudanÁa È a geraÁão de um efeito por uma causa; diz-se que sua filosofia tem um caráter biológico, porque nela, toda mudanÁa deve ser vista como fazer nascer. Como conhecer, para ele, era achar as causas, a física seria a explicaÁão do movimento por suas causas, que seriam encontradas nos vários seres que existem.

Galileu já condenara esse modo de pensar, porque desprezava o estudo das essÍncias para a compreensão dos fenômenos naturais, substituindo-o pela visão das relaÁões matemáticas entre os fenômenos. A crítica de Descartes foi mais longe: criticando a forma substancial, afirmou que a ciÍncia deve pretender uma separaÁão total entre a substância física (material) e a psíquica (espiritual-alma), afastando qualquer princípio interno ou essÍncia que não possa ser tratado matematicamente.

A destruiÁão da forma substancial e a afirmaÁão da separaÁão entre substância pensante (espírito) e substância extensa (matÈria) são os princípios fundadores da ciÍncia moderna. E os devemos a Descartes.

Dado que as substâncias foram separadas, qual delas será o ponto de partida para a construÁão da filosofia? O filósofo escolheu a substância pensante, que È o sujeito que fundamenta o conhecimento. Descartes inverteu o percurso clássico do conhecimento - do Ser ao Conhecer - isto È, das coisas (sensaÁões e percepÁões) ao pensamento; as idÈias são o seu ponto de partida para as verdadeiras representaÁões das coisas.

Retornando, então, à dúvida, pergunta-se: poderá ser ela permanente, como propuzeram os cÈticos? Duvidando, aquele que duvida desvela a origem da dúvida, isto È, percebe que a dúvida È um exercício do pensamento e que, portanto, dele não se pode duvidar. Se a dúvida existe, existe o pensamento e eu que duvido, penso, e portanto existo, pelo menos como ser pensante - penso, logo existo, È o cÈlebre cogito, ergo sum, o cogito cartesiano, a primeira certeza, fundamento do racionalismo moderno. Como disse Descartes (1), no “Discurso  do MÈtodo”: “Mas, logo em seguida, adverti que, enquanto eu queria assim pensar que tudo era falso, cumpria necessariamente que eu, que pensava, fosse alguma coisa. E, notando que esta verdade: eu penso, logo existo, era tão firme e tão certa que as mais extravagantes proposiÁões dos cÈticos não seriam capazes de a abalar, julguei que podia aceitá-la, sem escrúpulo, como primeiro princípio da Filosofia que procurava”(p.54). Do pensamento ao ser pensante, Descartes atravessou o abismo que separa a subjetividade ( o pensamento) da objetividade (o ser pensante).

Agora, já confiante na razão que lhe ofertara a primeira evidÍncia, a primeira certeza ou verdade, ele já pode partir para outras certezas e partiu para a prova da existÍncia de Deus, antes de procurar a veracidade do mundo físico.

Temos a idÈia de Deus (ordem conceitual),  que vem da existÍncia de Deus (ordem real); porque Deus existe È que existe a idÈia de Deus na mente humana; como um espírito finito poderia gerar a idÈia de infinito? Isso significa que a causa dessa idÈia só pode ser o próprio Deus, que deixou no ser criado a marca de sua infinitude - a idÈia de infinito. Deus tambÈm criou tudo o mais que existe e a sua criaÁão È contínua, ou as coisas finitas deixariam de existir.

Se existe a idÈia de um Ser perfeito, È porque Ele existe e, se È perfeito, È bom e veraz; assim não pode permitir que o espírito humano erre sempre, nem a interferÍncia do GÍnio Maligno; chegou, então, ao otimismo científico e à crenÁa inabalável na razão humana (racionalismo); as idÈias não são invenÁões de um gÍnio mau, mas, sendo claras e distintas, correspondem efetivamente a realidades - a evidÍncia È critÈrio da verdade; quanto maior for a clareza subjetiva, maior será a objetividade.

O Deus de Descartes È garantia de objetividade, È o fundamento da verdade: o Bon Dieu È, na verdade, a Deusa Razão, que viria a ser o paradigma do Iluminismo do sÈculo XVIII.

A bondade e a veracidade do Bon Dieu, tambÈm serão o fundamento da demonstraÁão racional da existÍncia do mundo físico - a passagem da certeza sobre a existÍncia do pensamento (res cogitans) para a certeza sobre a existÍncia do mundo físico (res extensa) se apoia em Deus, que faz a ponte entre duas certezas: “sou uma coisa que pensa” (res cogitans) e “tenho um corpo” (res extensa). Não se pode empregar o princípio da evidÍncia às idÈias que se tem do mundo físico, porque sendo decorrentes dos sentidos,  não são claras e distintas. Dado que Deus tudo pode, pode existir o mundo criado por Ele; alÈm disso, há no pensamento uma idÈia clara sobre o mundo físico - a de extensão (essÍncia das coisas materiais), que apresenta grandeza e forma; se tal idÈia existe no espírito humano È porque ela existe na realidade; se não, ou o espírito do homem teria,  por obra do GÍnio Maligno, tendÍncia ao Írro, o que, certamente, È incompatível com a idÈia do Bon Dieu; porque Deus È bom, as imagens (representaÁões) do mundo dadas pelos sentidos não são meras ficÁões: se Deus existe, então, o mundo físico tambÈm existe - a garantia da sua objetividade È Deus.

Ao contrário da física, onde se pode separar substância pensante (alma) de substância extensa (corpo), no homem elas coexistem substancialmente, em íntima comunhão - Descartes aceitou a dualidade alma-corpo, e deu explicaÁões de como eles se inter-relacionam que, logo depois, dentro do próprio racionalismo moderno,  foram substituídas por outras, como as de Spinoza e Leibniz.

Mas, o que realmente importa observar, È que ele criticou a ciÍncia aristotÈlico-escolástica por misturar quantidade e qualidade no estudo da realidade; e foi por isso que recorreu à matemática - a física se tornou físico-matemática, desprezando os aspectos qualitativos das coisas, estudando apenas o quantitativo, aquilo que pudesse ser submetido ao rigor matemático (a extensão- os corpos materiais); assim, lanÁou os fundamentos da física moderna, continuando o caminho aberto por Galileu.

Para Descartes, a idÈia, como representaÁão de algo, tambÈm tem seu ser - essa È uma novidade que Descartes apresentou à Filosofia, fazendo possível falar-se no ser da idÈia, que È independente daquilo que ela representa.

Entende-se, portanto, que ele tenha baseado sua física em sua metafísica, propondo que Deus assegura o conhecimento científico a partir de idÈias claras.

No campo da vida prática, propôs uma moral provisória: trata-se mais de uma “arte de ser feliz”, recomendando o conformismo às regras da sociedade e às leis e costumes do país. Numa carta a Chanut, de 1647, dizia Descartes (2): É verdade que me recuso a escrever meus pensamentos sobre a moral, e o faÁo por dois motivos: primeiro porque não há matÈria em que os malignos possam mais facilmente achar motivos para me caluniar; depois, porque creio que só caiba aos soberanos e àqueles por eles autorizados ocupar-se de regular os costumes dos outros”.  Sua dúvida não visou temas políticos e sociais. Somente no sÈculo XVIII, em nome dessa mesma razão cartesiana, as instituiÁões políticas e sociais iriam ser criticadas e condenadas.

Conclusão

Descartes teve tanta importância para a filosofia que todas as correntes de pensamento levaram suas idÈias em consideraÁão - ou concordaram ou discordaram, mas jamais ignoraram. Já no Iluminismo francÍs encontram-se esses dois modos de ver: os que acreditaram que ele estava errado, como Voltaire, consideraram-no um metafísico que pretendia construir o mundo a priori, sem se basear na experiÍncia; outros, como Diderot e D’Alembert, valeram-se do mÈtodo sistemático de Descartes para conceituar toda a realidade de maneira materialista e mecanicista, desprezando os conceitos cartesianos de alma (res cogitans) e de Deus.

Assim, para os materialistas, bastou calcar no aspecto mecanicista, ou seja numa ciÍncia que só se preocupa com os aspectos mensuráveis do mundo material; os idealistas procuraram em Descartes o metafísico: aquele que pôs o cogito como fundamento do saber, e o exaltaram como pai do idealismo moderno.

Descartes procurou o saber, isto È, todo o saber, o que ele chamou de mathesis universalis, uma ciÍncia unitária desenvolvida com o mÈtodo matemático; para chegar a tal saber absoluto precisa-se comeÁar pela metafísica, que será o alicerce sobre o qual se erguerá o edifício da física e, que, portanto, deverá ser muito forte.

A crítica de Descartes à tradiÁão não indica ruptura total com o saber tradicional; muito mais, significa que ele não apenas corrigiu soluÁões apresentadas para os problemas filosóficos, mas que, principalmente, inovou na metafísica e principalmente no mÈtodo. Sua obra de recontruÁão do saber foi imensa, como se pode ver, analisando alguns conceitos fundamentais do seu pensamento:

1. Dualismo

Descartes È dito dualista porque admite a existÍncia de duas substâncias separadas, alma e corpo, ou, em seus termos, substância pensante e substância extensa. Aí se inserem questões sobre a independÍncia completa entre pensamento e extensão e a possibilidade de pesquisar a realidade física em termos quantitativos, pela matemática.

Inclui-se tambÈm nesse aspecto a separaÁão entre sujeito e objeto: o sujeito È estabelecido em primeiro lugar, para depois surgirem os objetos a serem conhecidos por ele a partir de si mesmo e que não são ele - o sujeito È independente e ponto de partida para a aquisiÁão do conhecimento.

2. Idealismo

O sujeito como pensamento È quem tem a certeza que traz conhecimento; assim, o conhecimento È formado a partir de idÈias e não mais, a partir da sensaÁão. A verdade do mundo material aparece na demonstraÁão racional de que as coisas que percebemos, realmente existem. As idÈias são seres completos e reais - sua verdade È mais segura porque não flutua ao sabor da experiÍncia sensível - a realidade está em primeiro lugar na representaÁão no espírito, no sujeito, na forma de idÈias, o que não exclui a realidade do mundo material.

3. Subjetivismo

Foi a principal modificaÁão que Descartes fez na Filosofia - o pensamento, conduzido pelo mÈtodo, encontra nele mesmo os critÈrios que levarão ao estabelecimento da verdade das coisas. O sujeito È a primeira realidade no plano do conhecimento e, uma vez que seus conteúdos mentais forem postos à prova pelos critÈrios do mÈtodo, serão reais e não meros reflexos da realidade. A primeira realidade que o sujeito pensante alcanÁa È seu próprio pensamento e daí ele parte para o conhecimento do mundo externo.

4. RepresentaÁão

RepresentaÁão È qualquer conteúdo presente na mente. Na teoria realista do conhecimento, como a aristótÈlico-tomista, a representaÁào È o reflexo da realidade percebida (nada está na mente que não tenha passado pelos sentidos); o real seria, então, o particular percebido pelos sentidos, que levaria atravÈs de abstraÁões ao universal - a substância.

Descartes preconizou o caminho inverso: tem-se primeiro as representaÁões que depois são validadas como reais pelos critÈrios do mÈtodo; parte-se das idÈias e nelas se encontra os indícios de que elas correspondem a alguma coisa. O idealismo de Descartes não excluiu as coisas externas, apenas substituiu a inseguranÁa do conhecimento obtido pelas sensaÁões, pela seguranÁa das representaÁões. Primeiro se estuda o conteúdo da mente, para depois ir da representaÁão para a coisa por ela representada.

A Filosofia de Descartes È, por conseguinte, no dizer de Leopoldo e Silva (4), “uma reconstruÁão do saber enquanto marcha pelo caminho da representaÁão em direÁão ao reencontro da realidade”.

ReferÍncias Bibliográficas

1. Descartes, RenÈ. Discurso do MÈtodo, in: Os Pensadores. vol. XV. São Paulo: Abril Cultural, 1973.

2. Descartes, RenÈ. Lettres sur la Morale. Paris: Haitier-Boivan, 1935.

3. Descartes, RenÈ. MeditaÁões, in: Os Pensadores. vol. XV. São Paulo: Abril Cultural, 1973.

4. Leopoldo e Silva, Franklin. Descartes. São Paulo: Editora Moderna, 1998.

5. Rovighi, Sofia V. História da Filosofia Moderna. São Paulo: EdiÁões Loyola, 1999.